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sábado, 4 de dezembro de 2010

Aprendendo a pensar - por Stephen Kanitz

Segue abaixo uma reflexão do Kanitz bem legal. Acho que vou mudar mais um pouco minhas aulas...


***


A maioria das aulas que tive foi expositiva. Um professor, normalmente mal pago e por isso mal-humorado, falava horas a fio, andando para lá e para cá. Parecia mais preocupado em lembrar a ordem exata de suas idéias do que em observar se estávamos entendendo o assunto ou não.

Ensinavam as capitais do mundo, o nome dos ossos, dos elementos químicos, como calcular o ângulo de um triângulo e muitas outras informações que nunca usei na vida. Nossa obrigação era anotar o que o professor dizia e na prova final tínhamos de repetir o que havia sido dito.

A prova final de uma escola brasileira perguntava recentemente se o país ao norte do Uzbequistão era o Cazaquistão ou o Tadjiquistão. Perguntava também o número de prótons do ferro. E ai de quem não soubesse todos os afluentes do Amazonas. Aprendi poucas coisas que uso até hoje. Teriam sido mais úteis aulas de culinária, nutrição e primeiros socorros do que latim, trigonometria e teoria dos conjuntos.

Curiosamente não ensinamos nossos jovens a pensar. Gastamos horas e horas ensinando como os outros pensam ou como os outros solucionaram os problemas de sua época, mas não ensinamos nossos filhos a resolver os próprios problemas.

Ensinamos como Keynes, Kaldor e Kalecki, economistas já falecidos, acharam soluções para um mundo sem computador nem internet. De tanto ensinar como os outros pensavam, quando aparece um problema novo no Brasil buscamos respostas antigas criadas no exterior. Nossos economistas implantaram no Brasil uma teoria americana de "inflation targeting", como se os americanos fossem os grandes especialistas em inflação, e não nós, com os quarenta anos de experiência que temos. Deu no que está aí.

De tanto estudar o que intelectuais estrangeiros pensam, não aprendemos a pensar. Pior, não acreditamos nos poucos brasileiros que pensam e pesquisam a realidade brasileira nem os ouvimos. Especialmente se eles ainda estiverem vivos. É sandice acreditar que intelectuais já mortos, que pensaram e resolveram os problemas de sua época, solucionarão problemas de hoje, que nem sequer imaginaram. Raramente ensinamos os nossos filhos a resolver problemas, a não ser algumas questões de matemática, que normalmente devem ser respondidas exatamente da forma e na seqüência que o professor quer.

Matemática, estatística, exposição de idéias e português obviamente são conhecimentos necessários, mas eu classificaria essas matérias como ferramentas para a solução de problemas, ferramentas que ajudam a pensar. Ou seja, elas são um meio, e não o objetivo do ensino. Considerar que o aluno está formado, simplesmente por ele ter sido capaz de repetir os feitos intelectuais das velhas gerações, é fugir da realidade.

Num mundo em que se fala de "mudanças constantes", em que "nada será o mesmo", em que o volume de informações "dobra a cada dezoito meses", fica óbvio que ensinar fatos e teorias do passado se torna inútil e até contraproducente. No dia em que os alunos se formarem, mais de dois terços do que aprenderam estarão obsoletos. Sempre teremos problemas novos pela frente. Como iremos enfrentá-los depois de formados? Isso ninguém ensina.

Existem dezenas de cursos revolucionários que ensinam a pensar, mas que poucas escolas estão utilizando. São cursos que analisam problemas, incentivam a observação de dados originais e a discussão de alternativas, mas são poucas as escolas ou os professores no Brasil treinados nesse método do estudo de caso.

Talvez por isso o Brasil não resolva seus inúmeros problemas. Talvez por isso estejamos acumulando problema após problema sem conseguir achar uma solução.

Na próxima vez em que seu professor começar a andar de um lado para o outro, pense no que você está perdendo. Poderia estar aprendendo a pensar.

Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br).

Artigo Publicado na Revista Veja, Editora Abril, edição 1763, ano 35, nº 31, 7 de agosto de 2002, página 20.



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segunda-feira, 20 de setembro de 2010

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Acompanhamento de trabalhos acadêmicos

Desenvolver um trabalho acadêmico costuma ser difícil para muitos universitários. A preocupação com formatação, metodologia e prazo de entrega é tão grande, que a relevância acadêmica e profissional que o trabalho poderia proporcionar fica com frequência em segundo plano, assim como a satisfação pessoal que pode advir desse tipo de realização.


Público alvo

Estudantes universitários e pós-universitários de todas as regiões do Brasil e países de Língua Portuguesa, que desejem produzir trabalhos de acordo com a metodologia acadêmico-científica nas áreas de Psicologia, Pedagogia, Administração, Economia, Ciências Sociais, Serviço Social, Direito, Filosofia, História, e áreas afins.


Professora

Fernanda Insfrán é Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atua na área clínica (Abordagem Centrada na Pessoa), escolar e de pesquisa acadêmica. Foi professora da Universidade Santa Úrsula (curso de Psicologia), Universidade Cândido Mendes (curso de Administração e MBA em Gestão de Pessoas) e Fundação Getúlio Vargas (curso de Administração). Orientou dezenas de monografias de conclusão de curso nestas universidades e atualmente coordena um grupo de pesquisa na UFRJ sobre Representações sociais e relações no ambiente educativo.


Currículo Lattes completo em: http://lattes.cnpq.br/2513767930817551


Mais informações sobre o curso online aqui.



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quarta-feira, 14 de abril de 2010

Vendo as coisas por uma nova perspectiva






Dizem que o hábito faz a pessoa. Por um lado isso é verdade da mais verdadeira, por outro um perigo que mora debaixo de nossas camas, pronto para puxar nosso pé.

O hábito é um mecanismo que foi desenvolvido ao longo da evolução de nossa espécie e tem como função poupar energia para ser gasta com algo que realmente precisemos. Esse é um conceito sociológico apresentado por Berger e Luckmann e que acaba por resultar em nossa construção da realidade.

Cada um de nós possui uma realidade individual e única. Mas, então, como fazemos para viver em sociedade? Bem, poderíamos dizer a grosso modo que vivemos na interseção da realidades dos integrantes da sociedade. Vivemos nesse lugar comum a todos nós, nesse ecótono social, que é a realidade compartilhada.

E é aí que entra a necessidade de expandirmos nossos horizontes, como bem retrata o vídeo acima. O hábito é interessante por permitir a economia de energia; porém, corremos o risco de termos em nossa caixa de ferramentas poucos instrumentos para apreciar e nos adaptarmos ao mundo. Diz outro velho ditado que para quem tem um martelo na mão, tudo é prego. Mas nem tudo neste mundo é prego.

Conhecer o mundo, adquirir cultura geral, aprender com viagens, livros e pessoas novas abrem portas para um experiência existencial magnífica. Eu sou falante fluente no Português (não por nascer no Brasil, mas por fazer uso corrente e aprofundado desse idioma), falo Inglês com sotaque mas com desenvoltura (thanks dad for those exchange programs; thanks to my dear students back then when I used to teach English), arranho no Alemão (nur ein bisschen... so ich essen kann wenn ich nach Deutschland fliegen können) e no Espanhol (en la escuela la maestra lo me enseño).

Agora tenho uma nova meta: aprender francês. Sim, aquela língua cheia de biquinhos e de pose meio esnobe. Assim pensava eu até janeiro. Minhas aulas começaram em fevereiro e estou adorando minhas aulas. Aprender novas línguas e a cultura dos povos falantes desses idiomas é fascinante.

Tenho feito alongamento cerebral. Estou alargando meus hábitos, ouvindo música diferente, aumentando o número de ferramentas disponíveis para explorar o mundo e minha vida de uma forma saudável.

Hoje sei contar de vários jeitos... Progressivamente: um, dois, três, etc. Meio que de trás para frente: einundzwanzig, dreiundachtzig, und so weiter. E somando quantidades até formar a quantia desejada: soixante-dix, quatre-vingt, quatre-vingt-seize, etc.

Se eu for para os EUA e o Canadá (quem me dera ter dinheiro para isso no momento...), poderia muito bem me virar para achar um banheiro - daquele de shopping e aeroporto. Você está pensando em um bathroom, certo? Pois é... esse bathroom tem chuveiro, então não serve. Que tal um restroom. E se eu estiver em Miami?... Donde está el baño?... Em Vancouver? Procure por um washroom.

Hábitos são excelentes! Por isso lhe digo para você aumentar o número de hábitos. Quando o momento surgir, você vai poupar energia para resolver a situação.

Ampliar nossa caixa de ferramentas (nossos hábitos) nos possibilita ver as coisas ao nosso redor com outros olhos e, assim, analisamos os problemas na sua complexidade, considerando diversos níveis de correlação entre as variáveis presentes. Vixi!... Acho que o professor se sobressaiu nessa última, hein. Bem, se conhecemos outras perspectivas do mundo, podemos entender melhor o que está acontecendo.

Isso também é muito útil na clínica psicológica. Existe uma técnica chamada reenquadramento, e uso dela com frequência com meus pacientes. Pegamos o problema apresentado pelo paciente e colocamos ele a partir de outra perspectiva, quebrando um padrão de pensamento, quebrando um hábito e o encaminhando para uma análise diferente da situação.

Reenquadrar a situação, ou percebe-la por um novo ângulo, é como aprender a pensar fora da realidade individual e acrescentar a realidade individual potencial de outras pessoas à nossa caixa de ferramentas. É o que acontece quando você mora por um longo tempo em um lugar com outra cultura, tipo quando faz um intercâmbio, ou aprende uma língua, um instrumento ou pratica um esporte novo.

Além disso, podemos também aprender com nossos erros. Porque o ruim não é falhar ou errar; o ruim é errar e não aprender.





Você tem a capacidade de construir sua vida. Nós somos os personagens das estórias que contamos. Qual é a sua? Você é o escritor, o diretor e o personagem principal. Faça alguma coisa a respeito disso, porque a responsabilidade pela sua felicidade é sua.

Claro que não sou inocente e vou desconsiderar as condições nas quais iniciamos nossas vidas. Entretanto, podemos criar uma nova vida. Aqueles que melhor se adaptam sobressaem e sobrevivem, já dizia Darwin.

Não é o momento de discutirmos ética, moral ou afins. Esse momento é o momento no qual te convido a fazer uma limonada, uma salada de pepinos ou abacaxis grelhados com provolone. Seja qual for a situação, sempre temos a possibilidade (senão a determinação) de escolher.


Escolha uma nova vida.
Abra sua mente e seja mais feliz!
Faça disso um projeto pessoal.


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segunda-feira, 15 de março de 2010

Mudando o foco do problema para a solução




Dia desses estava dando aula de minha disciplina Psicologia Jurídica para uma turma de Direito do UNESC e tivemos a oportunidade de conversar um pouco sobre teorias e sistemas nesse incrível campo de conhecimento que é a Psicologia - ao qual dediquei anos de estudo e vivo todos os dias, não só por profissão, mas por afinidade. Nos momentos finais da aula falei um pouco sobre Milton H. Erickson e suas contribuições para a Psicologia, sobretudo no que tange sua aplicação Clínica. Digo Clínica porque ela está além das clínicas e dos consultórios. Clínica no sentido de design de comportamentos e de ter a intenção de proporcionar melhor qualidade de vida para as pessoas.

Falei para os alunos sobre uma mudança de paradigma interessante que faz parte da ideologia ericksoniana. E para ilustrar isso contei sobre a corrida espacial e a guerra fria. Durante a corrida espacial, vários problemas precisavam ser resolvidos para que as missões pudessem acontecer com sucesso e trazer informações importantes sobre o espaço.

Um dos problemas enfrentados por soviéticos e estadunidenses era tomar anotações e fazer relatórios. Como escrever em gravidade zero? A NASA lançou mão de sua carteira recheada e manteve o hábito de contratar empresas e cientistas para discutir o problema. Ao final, acabaram por desenvolver uma caneta que escreve de cabeça para baixo e até debaixo d'água. (creio eu que já vi isso anunciado na Polishop)

E os soviéticos? Ah!... eles leverão lápis. Simples assim.

A grande diferença na vida é como nós encaramos as situações que nos são apresentadas. Todo labirinto tem saída; toda equação matemática tem resposta dentro do universo no qual foi criada.

O que precisamos é a mudança de nossos valores. Se quisermos fazer um país melhor, um mundo melhor, precisamos mudar nosso mundo interior, mudar nossas cabeças. Sabe por quê? Porque é em nossas cabeças que criamos nossa realidade, nossas vidas, nosso mundo.



Ao invés de nos perguntarmos a razão das coisas serem como são, te convido a primeiro pensar como poderia ser melhor, como poderia ser diferente. Claro que saber o que houve e como o problema surgiu é importante. Mas o mais importante é quebrar o padrão, é mudar, é conseguir ter algo bom, a solução o mais rápido possível. E assim que as coisas estiverem melhores, aí sim podemos estudar o que aconteceu. E somente no intuito de prevenir situações similares no futuro.

Lembre-se: foco na solução!


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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Será este o último século?

Com as mudanças climáticas em voga na mídia, discutidas em salas de aulas, bares e botequins, ainda nos resta fazer algo de estratégico para salvar a vida humana como a conhecemos.

Não sabemos se a vida como a conhecemos seja realmente o que devamos ter (ou ser) como uma referência. Não sabemos realmente se os planos de reduzir a emissão de gases e poluentes aos níveis da década de 1990 será o suficiente e o eficiente para salvar o planeta.

Na verdade, o que está em jogo não é o planeta. O que está em jogo somos nós, pobres seres humanos, e, claro!, outro tanto de espécies.

Creio que boa parte do comportamento bizarro de se matar aos poucos - uma vez que já começamos a morrer quando nascemos - se deva pela ignorância e arrogância. A perspectiva limitada de aproveitar indiscriminadamente no breve intervalo da própria vida, como se tudo o mais fosse inexistente, como se não viéssemos de um passado e não houvesse um futuro.

Desde dezembro de 2009 venho pensando muito sobre a vida. Já postei aqui sobre meus pensamentos sobre carreira, projeto de vida e tantas outras coisas nesse período. O que mais me chama a atenção é pensar sobre a vida num sentido à le Edgar Morin e seu Método, algo como a vida da vida.

Gostaria de compartilhar com vocês algumas referências a título de reflexão. Esse post é um post de perguntas, não um post de respostas.

Sugiro assistir a The Road (filme sobre um mundo no qual as pessoas vagueiam num cenário bem horda durkheimiano), ao especial Earth 2100 do canal estadunidense ABC e à palestra do TED de Martin Rees.





Um ótimo final de semana a todos!


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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Os benefícios das falhas


Realmente nem tudo são flores, como diria o ditado popular, mas também não precisa ser fezes.


Costumo fazer com meus pacientes listas de qualidades, habilidades e talentos. E, na maioria das vezes, eles dizem que seria mais fácil escrever sobre seus defeitos. Uma pena quando focamos nos defeitos com baixa auto-estima e sem nos prepararmos para lidar com eles de uma maneira construtiva.

Geralmente, fazemos uma primeira lista com características positivas e depois fazemos também uma com os supostos defeitos. Algumas pessoas se sentem aliviadas com a lista de defeitos, outras encontram ali a desculpa que precisavam para seus comportamentos inadequados. E então elas se surpreendem quando peço para escreverem ao lado dos defeitos o que podem aprender com eles.

Toda e qualquer características não é boa nem ruim em si. Nossas características são instrumentos, que, se bem aplicados, podem ser ótimos. Um martelo, uma faca, energia nuclear ou qualquer outra coisa tem sua função.

Nos momentos mais difíceis revelamos características únicas. Espero que quando o pior aparecer, você revele qualidades incríveis - em suas habilidades e em seus defeitos. Sei que pode parecer pessimista num primeiro momento este "quando" que acabo de escrever, mas acredite, nossas vidas terão bons e maus momentos e devemos estar preparados para ambos.

A sorte pode até bater na nossa porta - apesar de achar esta uma possibilidade quase inimaginável -, porém, cabe a nós reconhecê-la e convidá-la para entrar.

Suportar as dificuldades e superar os obstáculos é um exercício. Não é fácil, não é simples. Apenas devemos fazer ou sucumbir. São justamente os dias de chuva que atiçam nossa sede por lindos dias de sol.

Se as coisas ficarem difíceis demais. Olhe a sua volta, procure amigos, peça ajuda a um profissional.

Aproveite também para aprender com seus erros. O melhor seria aprender com os erros dos outros, mas aprender com nossos erros também contribui para nos tornarmos pessoas melhores.


Acredite!
Depois da chuva vem o sol.

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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

PASSEIO SOCRÁTICO

por Frei Betto

Ao viajar pelo Oriente mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão.

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois modelos produz felicidade?'

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: 'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'. Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde'. 'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã...'. 'Que tanta coisa?', perguntei. 'Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula de meditação!'

Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!' Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi nho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais...

A palavra hoje é 'entretenimento'. Domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, calçar este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental, três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shoppings centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald's...

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas fazendo um passeio socrático. Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz!"


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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A educação salva? E a ignorância?

Ontem, ao assistir a The Wall, fui diversas vezes atravessado por lembranças do último semestre e das reflexões às quais tenho me dedicado há cerca de um mês com mais dedicação.

A forma como pensamos a formação dos profissionais (e cidadãos) do futuro precisa definitivamente de uma revisão. A promessa capitalista de que o estudo leva necessariamente ao sucesso na carreira e de que a propriedade de bens e a acumulação de capital são a saída para todos os males tem mostrado como temos destruído o mundo e a nós mesmos. Estamos doentes: indivíduos, sociedade e biosfera.

Recordo-me vivamente de uma aula ao final deste semestre. Disposto a me dedicar, com o propósito de mudar a vida daquelas pessoas, uma aluna me pergunta o motivo de dar aulas deste meu jeito diferente dos demais professores. Expliquei que gostaria de proporcionar uma vida diferente aos alunos, dá-los a oportunidade de conhecer o mundo de uma forma diferente e mudar suas vidas.




Ela implacavelmente retrucou que preferia permanecer alienada. Lembrei de Cypher em Matrix: ignorance is bliss.




Quem tem a razão: o ovo ou a galinha?


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terça-feira, 24 de março de 2009

O Fim dos Objetos

Segue texto publicado em 2005 pelo meu professor de e-commerce da FGV, Andre Kischinevsky. Muito interessante... me faz pensar em algo quase como Matrix. Como o tema ainda é atual, vale tomar um tempo para o texto.

Boa leitura!


Artigo publicado no Jornal "O Globo" - seção "Opinião"

Comenta-se sobre o uso cada vez maior de dispositivos móveis e em uma firme tendência para o desenvolvimento de palmtops, celulares, livros e computadores cada vez mais leves e portáteis. No entanto, a longo prazo, essa é uma visão equivocada. Apostar na evolução linear dessa tecnologia é um erro. Em menos de vinte anos todos esses equipamentos estarão extintos. Os aparelhos não serão cada vez menores, mais rápidos, leves e coloridos. Eles deixarão de existir.

No futuro, esses dispositivos serão softwares. Serão programas de computador e não máquinas. Para adquirir um novo palmtop, e-book ou relógio vai baixar pela internet um programa. Os novos engenheiros serão programadores e os objetos virtuais dividirão o espaço com objetos físicos. Se você acredita que um e-book do futuro será uma folha de papel eletrônico, repense. Os e-books existirão, mas serão inteiramente virtuais. Serão objetos de software. Assim como os aparelhos de televisão, de som e até mesmo os produtos nas prateleiras do supermercado.

Nas próximas décadas, a interface do mundo virtual será integrada a três de nossos sentidos: visão, audição e, parcialmente, ao tato. No início, usaremos óculos especiais, transparentes, e veremos o mundo com complementos virtuais. Você poderá olhar para uma parede e ver a tela de uma TV ou para sua cabeceira e ver um despertador virtual. Aos poucos, as lentes se tornarão mais integradas ao nosso corpo. O mesmo ocorrerá com fones de ouvido e dispositivos para simular o tato. Você não precisará carregar um computador portátil como conhecemos hoje. Seus sentidos estarão permanentemente conectados à internet.

Imagine-se daqui a vinte anos na sala de embarque de um aeroporto. Seu avião atrasa e você decide fazer compras. Como todo mundo, você está usando minúsculos dispositivos que conectam seus sentidos à Rede, permitindo que você veja, ouça e sinta os objetos virtuais. Fisicamente, a loja é apenas um espaço de circulação. Mas, ao entrar, você decide que tipo de produto deseja comprar e a loja se enche de produtos virtuais. Você interage com os produtos como faria com produtos físicos. Se optar por uma loja de móveis, poderá empurrá-los, virá-los e ver suas etiquetas. Os objetos virtuais reagirão de forma parecida com os tradicionais e você terá uma experiência de compra como numa loja de hoje.

Ao terminar de fazer compras, você decide apreciar quadros. Sendo assinante do canal de arte virtual do Louvre, onde quer que você vá, há quadros do acervo do museu. A administração do aeroporto decidirá o local ideal para posicioná-los, mas são os computadores do Louvre que fornecerão os quadros virtuais para suas lentes. Cada passageiro da sala verá quadros de sua preferência e passageiros sem programação verão quadros do acervo da Infraero, com fotos da história da aviação.

Durante o vôo, o sistema de entretenimento pessoal será substituído por uma simples conexão com a internet. Cada passageiro poderá cuidar de sua programação, ler livros virtuais, ver TV, falar com a família ou usar um micro virtual. Entretanto, nem tudo se tornará virtual. Apenas alguns de nossos sentidos poderão ser estimulados assim nas próximas duas décadas. Continuaremos precisando comer comida, dormir em camas e viver em casas de verdade. Mas, vendo e ouvindo os objetos virtuais, mudaremos radicalmente nossa interação com o mundo. Você se enfeitará com jóias virtuais, poderá mudar a cor de seu cabelo sem usar uma gota de tintura e encher a casa de porta-retratos virtuais.

Um dos fatores-chave para isso tudo funcionar será a padronização dos objetos virtuais. Se você baixa da internet um novo aparelho de som virtual, todos em sua casa devem poder ouvi-lo. Seria um desastre descobrir que o som é incompatível com os visitantes! Por isso, a criação dos padrões da internet iniciada na década de 70 foi um importante passo para esse futuro em que poderemos dar festas com som alto a qualquer hora sem incomodar os vizinhos — exceto, claro, se os convidados forem barulhentos.



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